CONCERTO PARA DR. FABIANO
Há pessoas que conhecemos por muito tempo e, ainda assim, deixam poucas lembranças marcantes. Outras cruzam nosso caminho e, com pequenos gestos, mudam o rumo de muitas histórias. Para mim, o Dr. Antônio Fabiano Ferreira Filho foi exatamente essa segunda pessoa.
Conheci o Dr. Fabiano em um pequeno torneio de blitz de Natal que organizei pelo Metrópole Xadrez Clube, por volta de 2009. Embora eu já estivesse há muitos anos no meio enxadrístico, nunca havia ouvido falar dele. Sua relação com o xadrez era diferente da maioria. Não era movida pelos títulos ou pelas competições, mas por um profundo respeito ao jogo como arte, ciência e instrumento de desenvolvimento humano.
Ao final daquele torneio, apresentei, junto com meu grande amigo João Carlos Orguim, um calendário ambicioso de eventos para o ano seguinte. Jovens, cheios de ideias e de entusiasmo, tivemos a ousadia de perguntar publicamente se alguém conhecia algum patrocinador disposto a acreditar naquele projeto.
Jamais esquecerei o que aconteceu em seguida.
O Dr. Fabiano perguntou de quanto precisávamos. Respondemos, imaginando que aquela conversa terminaria ali. Em poucos instantes, diante de todos, ele decidiu patrocinar o projeto. Não nos conhecia profundamente, não exigiu garantias, não pediu nada em troca. Apenas acreditou em nós.
E essa era uma das suas maiores virtudes: acreditar nas pessoas.
O que começou naquele dia não foi um apoio pontual. Durante muitos anos, através da Oncosinos, viabilizou dezenas de torneios, encontros e projetos. Foram mais de cinquenta eventos realizados com seu apoio, contribuindo decisivamente para o fortalecimento do xadrez gaúcho. Entre tantos momentos inesquecíveis, esteve também a vinda do grande mestre letão Alexei Shirov a Porto Alegre, um acontecimento que demonstrou a força dos sonhos quando encontram pessoas dispostas a transformá-los em realidade.
Nossa amizade sempre foi construída em torno do xadrez. Frequentemente eu o visitava em sua casa, onde passávamos horas conversando sobre livros, partidas, coleções, peças históricas e tudo aquilo que fazia do xadrez muito mais do que um esporte. Lembro quando decidi vender praticamente toda a minha biblioteca enxadrística. Ele comprou boa parte daqueles livros, mas fez uma observação que jamais esqueci: disse que eu estava cometendo um erro e que, um dia, voltaria a comprar todos eles novamente, além de muitos outros. Como em tantas outras vezes, ele estava certo. Hoje possuo uma biblioteca muito maior, e sempre recordo daquele conselho.
Também tive a alegria de ajudá-lo, já nos últimos anos, a encontrar algumas raridades para sua coleção. Sempre que surgia uma peça brasileira realmente especial, minha primeira lembrança era de que ela deveria integrar o acervo do Dr. Fabiano, pois sabia o quanto valorizava a preservação da história do nosso jogo.
Outro momento que jamais esquecerei aconteceu quando eu e João Carlos começávamos a sonhar com a criação de um novo clube de xadrez. O Dr. Fabiano acompanhava essas conversas de perto e sempre nos incentivava. Até que um dia nos disse que tinha uma surpresa. Levou-nos até um prédio comercial próximo de sua casa e abriu uma porta. Ali estava a Casa do Xadrez, ainda antes da inauguração. Fomos os primeiros a conhecer aquele espaço que parecia ter saído de um sonho. Naquele instante compreendi que ele não era apenas alguém que apoiava ideias; era alguém que as transformava em realidade.
A Casa do Xadrez nasceu com a personalidade do seu idealizador. Nunca foi apenas um espaço para competir. Era um lugar pensado para estudar, conviver, ensinar, acolher e utilizar o xadrez como ferramenta de crescimento humano. Essa visão permanece viva até hoje e continua inspirando tantos projetos voltados às crianças, aos jovens e a todos que encontram no xadrez muito mais do que um jogo.
Pouco antes de sua partida, ainda conversávamos sobre novos projetos. Falávamos em gravar cursos, produzir conteúdo e ampliar o alcance da Casa no ambiente digital. Infelizmente, esse sonho ficou apenas nas nossas conversas. Sua partida, tão repentina, foi um choque para todos nós. O vazio que deixou era proporcional à grandeza da sua presença na vida das pessoas.
Passados dois anos, a saudade permanece. Mas permanece também a gratidão.
O legado do Dr. Fabiano não está apenas nas lembranças daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele. Está na Casa do Xadrez, nos inúmeros eventos que ajudou a realizar, nas amizades que cultivou, nas crianças que descobriram o xadrez por causa da sua visão e em todas as pessoas nas quais decidiu acreditar ao longo da vida.
Algumas pessoas partem cedo demais, mas deixam marcas profundas demais para serem apagadas pelo tempo. Tenho a convicção de que o Dr. Fabiano pertence a esse grupo. Seu legado continua vivo, inspirando novas gerações, e continuará presente enquanto houver pessoas que, assim como ele, enxerguem no xadrez uma ferramenta para aproximar pessoas, formar caráter e transformar vidas.
Obrigado por tudo, meu amigo.
Texto: Felipe Kubiaki Menna Barreto
