terça-feira, 24 de março de 2020



TEMPO-OPORTUNIDADE

TEXTO ELABORADO PELO PROFESSOR DE FILOSOFIA DA PUC-RS, E ASSOCIADO DO
MXC. EM TEMPOS DE RAPIDEZ, CORRERIA E QUE 24 HORAS JÁ NÃO SÃO SUFICIENTES
PARA AS MÚLTIPLAS TAREFAS/ATIVIDADES QUE DESENVOLVEMOS; O QUE FAZER QUANDO TEMOS TEMPO E LIBERDADE DE ESCOLHAS. SARDI APONTA UM DOS CAMINHOS, VOCÊ TÊM A LIBERDADE DE TRILHA-LHO OU ESCOLHER UM "MELHOR".
APROVEITE O TEXTO!


Eis que advém o tempo-oportunidade para uma mudança de percepção
Há circunstâncias em nossas vidas nas quais uma reflexão sincera e realista se torna imprescindível. E são geralmente aquelas em que a vida se põe diante do seu limite, e em que há a urgente necessidade de superação. Porém, refletir é uma ação interna, pessoal, intransferível. Só irá fazer sentido se for praticada livre, lucidamente. Sugere-se, portanto, que reflitamos sobre o sentido no qual a superação das crises passa invariavelmente também pela transformação de nossas percepções, de nossas disposições mentais. Dar um novo significado, então a percepção da situação que estamos mundialmente vivenciando, como uma oportunidade para realizarmos uma pausa para pensar, para nos curarmos, como um tempo destinado a um ‘retiro espiritual’ e ao crescimento moral e intelectual. E que assim possamos construir as condições para aprender a vivenciar criativamente o tempo. Meditar, ler, desenhar, pintar, escrever, esculpir, cozinhar, decorar, assistir filmes, séries e documentários que nos ajudem a crescer espiritualmente, dedicando atenção, carinho e cuidado em cada ação; dedicar o tempo a algum hobby ou brincadeira que confira prazer ao tempo vivido; aprender algo novo, praticando autodidatismo e partilhando a ajuda de outras pessoas: uma segunda ou terceira língua, história, astronomia, filosofia, mitologia, matemática, ecologia, ciências em geral, culturas diversas, o que puder lhe interessar ou despertar curiosidade, aprendendo também a ‘filtrar’ informações, percebendo que um aprendizado suscita caminhos para outros aprendizados, inesperados, surpreendentes, fazendo do aprender também um caminho de contemplação. Neste retiro espiritual, como um ato de retirar-se da sobrecarga cotidiana de preocupações e do tempo vivido sem sentidos maiores que a sobrevivência ou o consumo desenfreado, terás  tempo-oportunidade para exercitar o autoconhecimento, despertando novas potências, para que o ‘conhecer a si mesmo’ seja também um motivo para ‘reinventar e reconstruir a si mesmo’; tempo para aprendermos algo sutil e precioso sobre os relacionamentos humanos, pela renovação criativa dos laços que mantêm saudáveis as condições para a coexistência cotidiana com os nossos familiares e todos aqueles com quem convivemos em nossos lares; tempo para redescobrirmos o prazer de brincar, de reinventarmos prazeres, sentidos e motivações; oportunidade para exercitarmos a solidariedade, reconhecendo-nos como parte da humanidade, integrados na grande teia da Vida que milagrosamente habita e evolui neste planeta, a Terra, este ‘pálido ponto azul’, comparável a um milagroso ‘útero’ que navega em gigantesco, infindável universo; tempo para mudar a própria percepção do tempo, como ‘tempo de vida’, e não apenas ‘tempo de produção’, como ‘atenção ao presente’, e não apenas tempo de preocupações em que a Vida não se deixa sentir, para assim percebermos que o valor do tempo-de-vida é incomensurável por qualquer cifra monetária; oportunidade para exercitarmos a gratidão por existir e para assumirmos, assim, a profunda responsabilidade que deverá advir desta gratidão. Neste convite para que possamos exercitar uma mudança de percepção, eis que advém o tempo-oportunidade para que este ‘retiro espiritual’ seja também provocador de uma profunda reflexão sobre as condições que geraram esta situação: diante de uma crise ambiental sem precedentes, com suas múltiplas dimensões; diante da supressão social gradativa de valores e sentidos, e das patologias sociais associadas; diante da crescente supremacia do lucro e do mercado, em detrimento da vida; diante da histórica construção da idolatria do ego, da solidão do individualismo e de suas múltiplas repercussões psíquicas e sociais; diante da recente e crescente negação da ciência, da arte, da filosofia, do espírito crítico e do bom senso; diante da espiritualidade,  gradativamente suprimida em um mundo dominado pela máquina e fascinado unilateralmente pela tecnologia, e do consequente ocultamento do que nos torna efetivamente humanos; diante do esquecimento do Sentido maior de nossas existências e da Vida como um todo; diante da necessidade de substituir a liberdade e de praticarmos sentir-juntos o profundo valor de todos os seres vivos e da humanidade; diante da urgência de reconstruirmos o imaginário social do futuro, mantendo desde já as condições para que as próximas gerações que irão habitar este planeta o façam com dignidade; diante da urgência de relembrarmos como ‘faz bem’ desejar o bem, reaprendendo a amar com humilde coragem. E diante das múltiplas possibilidades que o espírito criativo da humanidade puder, em rede, gestar, eis aqui também um convite para refletirmos coletivamente sobre como esta ‘parada para pensar’ (em escala mundial) poderá nos ofertar algo positivo, apesar de tudo, apesar das vidas que infelizmente perderemos, renovando nossos votos de esperança. Com sabedoria, pratiquemos paciência, humildade, coragem, serenidade, esperança, fraternidade, persistência, caridade, compaixão. Eis que advém assim um desafio: transmutarmos a crise em uma oportunidade, uma pausa, um retiro para potencializarmos as condições para crescermos espiritualmente como humanidade, reintegrando-nos integralmente ao surpreendente mistério da teia da Vida.

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