domingo, 23 de agosto de 2020




TEMPO/OPORTUNIDADE

Não fomos surpreendidos pelo texto do João Luiz de Mello, médico pediatra  e escritor nas horas vagas. Participou da Oficina de Criação Literária, de Alcy Cheuiche. Tem seis contos publicados em Contos Contemporâneos 2019, editora AGE. Entretanto, a surpresa advêm
do enfoque: xadrez x tempo. Não é um texto clássico de perde ou ganha peças. Não
é um escrito óbvio de ganhar tempo com movimentos de peças, mas um conto que relaciona as memórias de jogador de xadrez. É um texto saboroso, fruto da vivência e de muita leitura, aproveite.

Nós, jogadores de xadrez, somos privilegiados.

Os que vivem dentro de um cartão ponto, encaram o tempo com a perspectiva do eterno recomeço. Amanhã, segunda-feira, após o feriado ou depois do Carnaval a vida recomeça. O envelhecimento, que imperceptível se transforma em marcas, esquecimentos inesperados e rugas consomem o tempo sem que percebam.

 É a pintura de Goya – Saturno (Chronos para os gregos) devorando um filho.

Têm tempo marcado. Sabem que seus minutos estão decididos no início do jogo. Partida também seria uma boa palavra em vez de jogo. Ao mover a primeira peça o tempo, marcado, decidido, pactuado, já estamos partindo. Saturno abre sua boca e começa o banquete.

Mexemos  uma peça e podemos “ ganhar” um tempo ou perdê-lo. Não temos  ilusão que ganhamos ali a partida. Foi só um tempo. O relógio hesita por segundos, mas não pára. A partida foi escolhida, e a chegada só pode ser abreviada. Derrubar antes o rei, xeque-mate, fim.

Desejamos ter tempo para ler aquele livro esquecido na prateleira, estudar a variante que o adversário vai usar no próximo torneio, assistir o vídeo sobre finais de torres, mas ao final descobrimos que caímos naquele buraco do depois. O  tic-tac que escutamos e da seta que caiu já eram esperados, mas fomos nós que mexemos as peças.

A vida é demasiado curta para o Xadrez – Lord Byron.


João Luiz de Mello

Médico Pediatra e Sócio do MXC

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